11/11/13

Num abraço teu


Ao te deixares abraçar, agonizo em emoções, até os sentidos se abrem, na avidez da palavra, na ternura do toque. E levantas o rosto, o teu rosto que eu identifico com a palma da minha mão, em movimentos subtis, na  ternura de um abraço, como só tu sabes concretizar.

maria eduarda

09/11/13

Renascer



A água que flui
em céu aberto,
ondula a tua vontade
de querer naufragar,
no nosso existir.
Nada contra a corrente,
traz contigo o som do mar
e, mesmo em sofreguidão,
ganha um novo fôlego.
Aproxima-te da praia,
porque onde a ondulação rebenta,
tudo se renova:
a vontade de renascer,
de rejuvenescer,
de ser assim,
um constante viver!

maria eduarda

31/10/13

Insomnia resoluta


Horas na insónia
são dias erguidos sem dó,
são passagens sem chão,
são abandono sem lugar,
são assim,
como velas que ardem devagar
e não iluminam a noite
por que são decepadas de luz.
Nas voltas dos entre sonos,
imagens dos dias claros,
de acordados risos
com entrelaçados suspiros.
Nas agonias noturnas
vigia-se a esperança,
espreitam-se os vagares
de noites sem voltas,
sem tormentas,
de dias afins.
Acorda-se na pálpebra já aberta,
na pouca vontade
de, acordando,
voltar ao dia,
e nos dormires sucessivos,
noites brancas,
nos olhos cansados de ver...

maria eduarda

26/10/13

O beijo



O beijo paira no ar
perdido, cambaleante,
aguarda o alvo,
esperado, marcante.
Entrega-se, envolve-se
em total abnegação,
no sentir, na emoção,
na completa retribuição.
E os sentires despertam,
embriagam, extasiam,
revolvem, amordaçam,
num completo delírio.
E, no beijar deste modo,
declaram-se as palavras
que são ditas em atropelo,
neste beijo de desvelo.

maria eduarda

21/10/13

Existes



Não me despeço de ti, estás na brisa que vem de mansinho e me refresca a memória e o olhar. Dir-te-ei adeus, em dia parado de vontade, de fala e de aragem, que não te leva o meu dizer, quando nada mais houver para partilhar.

maria eduarda

15/10/13

Libertação


Amanhã,
no azul do dia,
no canto da ave,
no bater das asas,
saio sem mim.
Volto mais tarde,
evadida sem lugar,
colo-me inteira
à nudez do tempo,
à sombra da noite,
à escuridão consentida.

Vou sem mim,
nos dias em que não estou.

maria eduarda

12/10/13

Desencontros




Venho de longe,
deixei o sorriso escarlate,
na acácia ao rubro,
ao fundo do meu quintal.
Vesti um outro sorriso,
decalcado do primeiro,
não me deixa, não o deixo,
até ao dia esperado,
quando o resgatar,
e sorrir então inteira
no sonho de lá estar.

maria eduarda

09/10/13

Avaliar



Coladas
a estas palavras,
estão outras,
que não ouso escrever,
ou porque
as quero manter
na sombra,
ou porque
desfigurariam
a luminosidade
do meu deleitar.
Assim as quero,
controladas,
na memória
mais sombria

dos meus dias.

maria eduarda

05/10/13

Opção


Parti a tampa do frasco de vidro, estilhaçada em mil cacos de esperança, raiada de verde. 
Do chão, varri-os para fora de mim. Optei pela garrafa branca, destapada de outra cor, na brancura opaca da paz, por desvendar.

maria eduarda

03/10/13

Pertencer




Afasto as areias
que encontro no caminho,
devagar, de mansinho.
Vou precisar delas
na minha vinda,
que enfileiradas
me indiquem,
onde colocar o passo,
e convictas,
me marquem o lugar,
onde o meu ser tem espaço.

maria eduarda 

28/09/13

Prisioneira



Os sapatos levam-me por aí,
mas hoje doem-me os pés.
Desculpa em mim, não saí,
prisioneira da força das marés.

Na concha continuo, neste cansaço
que me inunda, me envolve.
Abraça-me como o sargaço
que não descola, não se move.

Aprisionada, envolta em braços,
não quero espreitar lá fora.
A escuridão estreita os laços,
e quero aquiescer na demora.

Há dias que acordam assim,
sem apelo, sem vontade,
como algo desprovido ou afim,
que me tira toda a sanidade.

Talvez o sol me ilumine,
se hoje a luz me presentear,
ou a pouca vontade me fulmine,
de um não querer, um apartar.


Queria poder esbracejar.

maria eduarda

26/09/13

Por decifrar



A voz do mar
chamou mais cedo,
e no teu corpo
surgiram sinais
da maresia,
em areias brancas
projetadas no vidro
da tua moldura antiga.
E reclamo a voz
dos receosos paladares
nos sabores escolhidos,
em perfumes de jasmim
nas folhas do teu livro,
que ainda hoje decifro.

maria eduarda

23/09/13

No ventre



As pegadas
que marco
na passagem
deste chão,
desfazem-se
ao vento,
em grãos luzidios.
Caminham sem mim,
rumo ao Sul,
de onde parti.
Lá,
procuram irmãos,
de marcas passadas,
profundas, visíveis,
inolvidáveis.

maria eduarda 

21/09/13

À descoberta



Sobre a vida,
nada te direi;
sobre mim,
serás tu,
em olhares fixos,
que descobrirás
a minha verdade
sobre ti.

maria eduarda

20/09/13

Autêntica



Assim, como navegante
em águas revoltas,
ou águas serenas.
E remo sempre,
braço condizente
com a vontade aliciante
de, na água que flui,
me rever nela,
e concluir
que no meu reflexo,
sou o que sempre fui!


maria eduarda

15/09/13

Reatar



Rasgões no tempo
perdem-se ao luar,
filtram-se à luz
nos reencontros.
E nasce o sorriso
meio perdido,
por que longe,
desencontrado.
E a amizade
revê-se nos olho
que fitamos,
e lembra que agora
é o momento
de agarrar o abraço,
é o momento
de não poder
arrefecer o calor
que nos retoma.
E somos nós,
detentoras
do mesmo alento.

maria eduarda

07/09/13

O silêncio da palavra


Difícil ouvir-te
no silêncio.
Mudei de posição,
abri a janela,
entrou o frio
em murmúrio,
mas não a tua voz.
Volto ao princípio,
atenta me mantenho
e nada ouço.
Vigio o meu pensamento,
pronto em texto,
destrocado em palavras,
à espera,
em silêncio, do sinal,
afinal, da tua voz!

maria eduarda

06/09/13

Na penumbra

Serás tu,
a imagem exacerbada
da doce loucura?
Serei eu,
a suave presença
adiada?
Seremos,
na penumbra,
até quando?

maria eduarda

02/09/13

Vacilar



O abraço, o aconchego,
a melodia no ar
-momento volátil-
memórias.

O semáforo
ao longe muda de cor,
reagir ao verde,
ou indeciso,
aguardar
o intermitente?

maria eduarda

01/09/13

Silêncio




Vejo no teu sorriso,
a alegria incontida,
o abraço forte,
o elogio presente.
Agora suponho-te,
a pessoa cordial
que subtilmente
se afasta,
na marca da ausência,
na falta de sinais,
no vazio da palavra,
em alturas cruciais.

maria eduarda

11/08/13

Vadios



Vadios,
os meus pensamentos
saem de mim,
assim,
sem dar conta,
já não estão aqui.
E voltam,
sossegados uns,
turbulentos outros.
Acalmo-os,
dou-lhes a alma
para lá entrarem,
e sossegarem.

Permanecem nesse canto
até ao desafio
que de mim parte.
Quando não dou permissão,
insistem e lá vão!
Com eles vou sempre,
afinal.
Partimos e voltamos,
nesta viagem virtual,
neste ir e vir vital!

maria eduarda

10/08/13

Ausente


Procurei-te
na ausência.
Encontrei-te
no silêncio
do pensamento.
Pudemos olhar-nos,
falar-nos,
enquanto durou
esse silêncio.
Perdi-te,
na presença!

maria eduarda

09/08/13

Marasmo


Chegas tarde,
chegas cedo,
que importa o tempo,
desde que chegues?

Vem,
rompe o marasmo,
reinventa o dia,
atenta em mim,
relança-te, e
nos meus braços,
descansa por mim.

maria eduarda

08/08/13

Intenção




Não tenho de mim,
senão eu...
Tantas vezes
incrédula,
tantas vezes
em busca!
E sou eu,
em vários estares
que me surpreendem,
na vontade que me habita
de ser sempre eu,
ontem como agora,
amanhã como outrora.
Ter força para voar,
firmeza em saber planar,
e voltar,
num sereno aterrar.

maria eduarda

07/08/13

Abreviar


A luz
escondeu-se
do meu horizonte
crepuscular.

Levo o laranja,
dobro-o
na bainha
dos meus lençóis,
da cor da paz.
Nessa luz
descanso,
no horizonte
assim criado.

maria eduarda

Reflexos



Há imagens que falam por si. Há sorrisos, expressões que jamais se esquecerão. E na vida, no momento, no reflexo de um qualquer espelho, recebe-se a dádiva, a grandeza desta emoção sentida, de rever nesse vidro, marcas de alguém que já partiu.

maria eduarda

05/08/13

Teimosia




Espreitam
com argúcia,
nuvens negras.
Posicionam-se,
e vertem lágrimas
que me lavam
na escuridão do dia.
Há brilho
no líquido jorrante,
herdou-o do Sol,
recluso, pedante,
decidiu confiante
não ser amante
de manhãs deslumbrantes.

maria eduarda

04/08/13

Há verdades



Há verdades indomáveis,
rebeldes, de duras,
molhadas, de lágrimas,
desesperadas, de inquietações.
Há verdades doces,
ternas, de beijos,
reconhecidas, de gratidão.
Há verdades ofuscadas,
povoadas de mentiras;
há mentiras redundantes
de verdades quase amargas.
Se reveladas, emerge o trunfo
verdadeiro, audaz, vitorioso,
de uma verdade alcançada
na derrota redundante
da verdade falseada.

maria eduarda

Surpreender


Surpreende-me
nas palavras ditas,
novas, nunca ouvidas,
no gesto corajoso
que segura a chama
na tocha que inflama.
Surpreende-me
no teu chamamento,
no sorriso franco,
para que o meu pranto
sucumba no lamento.
Recomeça a aposta
lançada neste jogo
onde fomos os dados,
à deriva lançados
nos mesmos caminhos
outrora traçados.
Inova o jogo,
dá-lhe outra direcção,
um rumo qualquer
onde por certo,
segure a tua mão.

maria eduarda

03/08/13

Resolução



A campainha da porta
oferece-se ao toque,
hesitante no gesto,
no soar inaudível,
ou no refreio da mão?
A espera do minuto,
a opção segunda,
o bater forte da mão,
força contida,
hesitação renovada.
Grotesca a resolução,
o virar das costas
em direção ao portão.

maria eduarda

01/08/13

Reagir


Às vezes vive-se embalado em vácuo, sem inércia, quase inanimado. Basta um pequeno sinal, e o invólucro rompe. Sai-se delirante, ofegante, pronto de braços e pernas, esbracejando, esperneando.

Liberto de sufoco, todo o chão é pouco para percorrer a liberdade e sorver a vida.

maria eduarda

Num abraço


Abraça-me
com o teu calor.
Alimenta a chama
que se quer acesa
no murmúrio da noite,
ou então,
estende os braços
para que eu saiba
ajustar-me
no teu porto de abrigo.
Em silêncio
pairaremos
em busca
do chão certo,
onde estaremos
tu e eu,
para sermos nós.

maria eduarda

31/07/13

Inquietude


Atirei-me ao mar,
levei as frustrações,
e algumas desilusões.
Nadei em ocasiões,
noutras, confiei
em certas ondulações.
Por fim avistei
a ilha esquecida,
onde náufraga me achei,
em vida, à deriva.
Mas, na paisagem
assim, em desmazelo,
estavas tu, na aragem,
na cor, no cheiro,
no ser em mim, no zelo.
Despi-me de inquietações,
afaguei-me nos teus braços,
ramos abertos que se estreitam,
me enlaçam e me beijam
me sufocam de abraços.

maria eduarda

30/07/13

Poema ao filho



Quisera eu embalar-te,
esperar que adormecesses,
e olhar-te sereno, nos meus braços.
Quisera eu, ouvir-te dizer Mãe,
quando te sentias assustado,
e me estendias a mão.
Quisera eu, apertar-te no colo,
acalmar-te e cobrir-te de beijos,
para então sossegares.
Quisera eu, fazer-te caretas,
e ouvir as tuas risadas,
de tanta alegria sentida.
Mas não!
Tu cresceste!E eu, às vezes, não vejo!
Tu traças o teu caminho, diferente,
e eu, às vezes, inquieto-me!
Tu estás diferente do menino,
e eu, tento reparar!
Às vezes, é mais difícil aceitar,
mas preciso dar-te espaço.
Sabes filho, nos teus sonhos,
hoje e sempre,
Estou lá eu,
o embalo e o aconchego!

maria eduarda

29/07/13

Alado


Reparei que os filhos trazem coladas, talvez desde crianças, umas asas incolores. Digo isto porque eu não as vejo, mas existem na certa.
Um dia eles aprendem a voar, e partem, saem do ninho que lhes construímos e mimámos, mas partem...
E eu fico a pensar nas tais asas, que nunca vi, mas que sei existirem.
Como voariam sem a sua ajuda?
E devem ser grandes, agora, poderosas, do tamanho do seu crescimento!
E hoje, o meu filho voltou a voar, porque este ninho, este aconchego, é temporário, já é nómada nele.
Voou rápido, porque em segundos, deixei de o avistar, mas também em segundos, o vazio instalou-se em mim, e no ninho que lhe criei.
E sinto cá dentro uma ferida, que só eu sei que existe, que me dói. Também sei que esta ferida vai fechando lentamente, porque o vi voar seguro e feliz.
Já tentei fotografar essas asas, mas encontram-se dentro dele, e só se abrem na altura certa, no momento da despedida, do adeus, do até breve.
E eu fiquei a vê-lo, ao longe, já um pontinho... mas asseguro-vos, era o meu filho, era ele que voava...

maria eduarda