28/01/16

Somos assim



Somos feitos
de marcas gravadas
na pele do coração.

Somos feitos 
de silêncios bravios,
que eclodem
no olhar,
quando o coração
se cala.
Somos assim,
na rouquidão da voz
encarcerada.

maria eduarda

10/12/15

Liberdade




E danço, 
sem idade,
sem temor,
na audácia
da libertação.
Abrem-se as amarras,
mantenho o rodopio,
e sou feliz!
Permito-me dançar,
porque já alcancei
a vitória da rendição
à liberdade
de o fazer,
sempre que me apetecer.

maria eduarda

13/10/15

Estar só


Há arte
no saber estar só.
É quadro belo
em sala vazia,
é ato de prazer
no silêncio assumido.
É assim que sou,
na tela colorida.

maria eduarda

A mesma direção





Anseio
que vás,
onde também quero ir.
Nessa ausência,
onde as almas gémeas
se abraçam,
onde tu e eu
somos encontrados,
onde somos,
na presença,
resgatados.

maria eduarda

15/06/15

Insurgir

E o poeta vacilou
e não mais rimou.
Agora,
os seus versos
insurgem-se
na agudeza dos sons,

na penumbra da fraqueza,

nesta imensidão

de tantos corações

vazios de poesia.

maria eduarda

10/02/15

Em mim



Albergo temores,
ânsias, atropelos.
Dou-lhes voz,
para meu alívio.
Em amena atitude
recolho fragâncias
de outros anseios,
diluo-os nos dias,
nas atitudes,
no pensar,
neste meu viver,
em constante procura,
em pausado saber.

maria eduarda

10/01/15

Aproximação




Alcança-me 
num estender de braços,
num chamamento.
Destrói a barreira,
constrói uma ponte,
única e exclusiva.
Neste compasso,
ensaio o sorriso,
visto-me a preceito,
e aguardo o eco
dos teus passos,
neste alcance
por mim eleito.

maria eduarda

12/10/14

Ondulações



A música traz
o vento ritmado,
pétalas cantantes
e sussurros vencidos.
Leva o soerguer da alma,
a leveza do tom,
a melodia refeita.

maria eduarda

10/08/14

Eleição


Tomei-te por pedra,
ao acaso jogada
no meu percurso.
Olhada,
retrocedi,
alisei-a,
recuperei-a,
e agora com outro fim,
depositei-a
bem no centro
do meu jardim.
Aí me detenho
diariamente,
no lazer,
no tratar,
 no embelezar.
A pedra roliça
adorna o canteiro,
e encanta-me a mim,
na função primeira,
da mensagem do recanto,
em lugar eleito
de meditação.

maria eduarda

09/08/14

Ao natural


Voar, a palmos do chão,
ziguezagueando,
em acrobacias.
De cima,
poder moldar-se
ao vento,
à chuva,
ao frio.
Se lhe permitir o voo,
os elementos desafia,
segue-os  como igual,
desabrido, ao natural.

maria eduarda

07/08/14

Encantamento


A noite é mensageira,
é dissuasora,
por vezes esclarecedora,
porque no silêncio,
recebemos a mensagem
que entra sem rodeios,
sem permissão.
À noite,
invadem-nos melodias,
encantam-nos magias
com contornos abusivos.
Compõem-se sinfonias,
audíveis, apetecíveis.
Entramos na pauta
musicada para nós,
adaptamos as notas,
diluímos o tom,
porque ao amanhecer
se concretizam noutro som.

maria eduarda

05/08/14

Embriaguez



Há momentos felizes,
pedaços nos nossos dias,
passagens onde somos aprendizes
em aperfeiçoar as melodias.

Essas sim, vivê-las
sem receio, em plenitude,
embriagados, sem contê-las,
extravasá-las na sua magnitude.

Ouvir o som que embala,
embeleza esta passagem,
Usufruir dele em plena gala,
refletir nele a nossa imagem.

Dançar sempre, neste salão,
ao som dos dias, notas musicais.
Contagiar até à exaustão,
persistir, não abandonar o cais.

E, quando a melodia acabar,
transferi-la para o coração,
enebriá-lo de um outro bailar,
para viver, há sempre uma razão!


maria eduarda

Dedilhar


E o som da guitarra
dedilhada, tangente,
abafa os meus passos
outrora devassos,
de ébrios cansaços,
revelados apenas
na corda errante
de uma guitarra
perdida no tempo.

maria eduarda 

13/07/14

Reconhecimento


Eras então tu,
sem brio,
sem rigor
de ti.
Curvaste-te
ao sol nascente,
na luz aquecida
de Verões ausentes.
No frio
da palma da tua mão,
sombreaste o dia
que se quer claro,
em ti!

maria eduarda

13/03/14

Enfermidade



Sei-te longe,
naquela distância
entre saber-me
neste chão,
e pressupor-te
nalguma razão.
Estar enferma
nesta libertação
que me cerca,
me tolhe,
me impede
de seguir,
me recolhe
na hesitação.

maria eduarda

09/02/14

Fazer sentido



Quando o meu rosto
se traduzir num mapa,
recheado de linhas,
quero saber-te aqui,
e, olhando-me, conheceres
nas linhas minhas,
o caminho percorrido,
o atalho escolhido,
as regras transgredidas,
e o amor por ti sentido.
Quero que a ternura impere,
cimentada em uníssono,
neste nosso caminhar,
na luta par a par,
travada contra tempos,
que não nos davam vitória!
Quero olhar para ti e,
em cada linha do rosto teu,
ver reflectido um esboço meu,
da viagem percorrida, unida,
sempre,sem despedida!
Só assim a luta faz sentido,

porque assim foi nosso, o vivido!

maria eduarda

02/02/14

Às vezes


Às vezes,
momentos, horas
vividas ao segundo,
tocam-nos, renascem-nos,
cumprimentam-nos
na alegria inundada,
na felicidade sentida.
E essas horas
são momentos,
instantâneos de vida
finalizados depois,
para serem (re)começados,
(re)vividos, sentidos.
E a felicidade assim,
quase em apoteose,
inunda-nos o corpo,
a alma, os sentires.
E o tempo entra,
em delícia,
toca-nos ao de leve,
resgata o silêncio,
exige ternura,carinho,

num tempo que agora é nosso,
de efémero que é...

maria eduarda

06/01/14

Invernos


Arvoredo despido,
galhos retorcidos,
quebradiços,
entoam toadas sazonais,
enchem de sonoridades
os quintais.
Rejeitam o frio
que lhes tolhe os braços
que querem abertos,
às aves matinais.
Reclamam o verde,
a cama dos pardais,
e azáfamas demais.
Mas, a luz que clareou
por instantes breves,
entre os galhos segredou,
que o Invernou já chegou.

maria eduarda

11/11/13

Num abraço teu


Ao te deixares abraçar, agonizo em emoções, até os sentidos se abrem, na avidez da palavra, na ternura do toque. E levantas o rosto, o teu rosto que eu identifico com a palma da minha mão, em movimentos subtis, na  ternura de um abraço, como só tu sabes concretizar.

maria eduarda

09/11/13

Renascer



A água que flui
em céu aberto,
ondula a tua vontade
de querer naufragar,
no nosso existir.
Nada contra a corrente,
traz contigo o som do mar
e, mesmo em sofreguidão,
ganha um novo fôlego.
Aproxima-te da praia,
porque onde a ondulação rebenta,
tudo se renova:
a vontade de renascer,
de rejuvenescer,
de ser assim,
um constante viver!

maria eduarda

31/10/13

Insomnia resoluta


Horas na insónia
são dias erguidos sem dó,
são passagens sem chão,
são abandono sem lugar,
são assim,
como velas que ardem devagar
e não iluminam a noite
por que são decepadas de luz.
Nas voltas dos entre sonos,
imagens dos dias claros,
de acordados risos
com entrelaçados suspiros.
Nas agonias noturnas
vigia-se a esperança,
espreitam-se os vagares
de noites sem voltas,
sem tormentas,
de dias afins.
Acorda-se na pálpebra já aberta,
na pouca vontade
de, acordando,
voltar ao dia,
e nos dormires sucessivos,
noites brancas,
nos olhos cansados de ver...

maria eduarda

26/10/13

O beijo



O beijo paira no ar
perdido, cambaleante,
aguarda o alvo,
esperado, marcante.
Entrega-se, envolve-se
em total abnegação,
no sentir, na emoção,
na completa retribuição.
E os sentires despertam,
embriagam, extasiam,
revolvem, amordaçam,
num completo delírio.
E, no beijar deste modo,
declaram-se as palavras
que são ditas em atropelo,
neste beijo de desvelo.

maria eduarda

21/10/13

Existes



Não me despeço de ti, estás na brisa que vem de mansinho e me refresca a memória e o olhar. Dir-te-ei adeus, em dia parado de vontade, de fala e de aragem, que não te leva o meu dizer, quando nada mais houver para partilhar.

maria eduarda

15/10/13

Libertação


Amanhã,
no azul do dia,
no canto da ave,
no bater das asas,
saio sem mim.
Volto mais tarde,
evadida sem lugar,
colo-me inteira
à nudez do tempo,
à sombra da noite,
à escuridão consentida.

Vou sem mim,
nos dias em que não estou.

maria eduarda

12/10/13

Desencontros




Venho de longe,
deixei o sorriso escarlate,
na acácia ao rubro,
ao fundo do meu quintal.
Vesti um outro sorriso,
decalcado do primeiro,
não me deixa, não o deixo,
até ao dia esperado,
quando o resgatar,
e sorrir então inteira
no sonho de lá estar.

maria eduarda

09/10/13

Avaliar



Coladas
a estas palavras,
estão outras,
que não ouso escrever,
ou porque
as quero manter
na sombra,
ou porque
desfigurariam
a luminosidade
do meu deleitar.
Assim as quero,
controladas,
na memória
mais sombria

dos meus dias.

maria eduarda

05/10/13

Opção


Parti a tampa do frasco de vidro, estilhaçada em mil cacos de esperança, raiada de verde. 
Do chão, varri-os para fora de mim. Optei pela garrafa branca, destapada de outra cor, na brancura opaca da paz, por desvendar.

maria eduarda

03/10/13

Pertencer




Afasto as areias
que encontro no caminho,
devagar, de mansinho.
Vou precisar delas
na minha vinda,
que enfileiradas
me indiquem,
onde colocar o passo,
e convictas,
me marquem o lugar,
onde o meu ser tem espaço.

maria eduarda 

28/09/13

Prisioneira



Os sapatos levam-me por aí,
mas hoje doem-me os pés.
Desculpa em mim, não saí,
prisioneira da força das marés.

Na concha continuo, neste cansaço
que me inunda, me envolve.
Abraça-me como o sargaço
que não descola, não se move.

Aprisionada, envolta em braços,
não quero espreitar lá fora.
A escuridão estreita os laços,
e quero aquiescer na demora.

Há dias que acordam assim,
sem apelo, sem vontade,
como algo desprovido ou afim,
que me tira toda a sanidade.

Talvez o sol me ilumine,
se hoje a luz me presentear,
ou a pouca vontade me fulmine,
de um não querer, um apartar.


Queria poder esbracejar.

maria eduarda

26/09/13

Por decifrar



A voz do mar
chamou mais cedo,
e no teu corpo
surgiram sinais
da maresia,
em areias brancas
projetadas no vidro
da tua moldura antiga.
E reclamo a voz
dos receosos paladares
nos sabores escolhidos,
em perfumes de jasmim
nas folhas do teu livro,
que ainda hoje decifro.

maria eduarda

23/09/13

No ventre



As pegadas
que marco
na passagem
deste chão,
desfazem-se
ao vento,
em grãos luzidios.
Caminham sem mim,
rumo ao Sul,
de onde parti.
Lá,
procuram irmãos,
de marcas passadas,
profundas, visíveis,
inolvidáveis.

maria eduarda 

21/09/13

À descoberta



Sobre a vida,
nada te direi;
sobre mim,
serás tu,
em olhares fixos,
que descobrirás
a minha verdade
sobre ti.

maria eduarda

20/09/13

Autêntica



Assim, como navegante
em águas revoltas,
ou águas serenas.
E remo sempre,
braço condizente
com a vontade aliciante
de, na água que flui,
me rever nela,
e concluir
que no meu reflexo,
sou o que sempre fui!


maria eduarda

15/09/13

Reatar



Rasgões no tempo
perdem-se ao luar,
filtram-se à luz
nos reencontros.
E nasce o sorriso
meio perdido,
por que longe,
desencontrado.
E a amizade
revê-se nos olho
que fitamos,
e lembra que agora
é o momento
de agarrar o abraço,
é o momento
de não poder
arrefecer o calor
que nos retoma.
E somos nós,
detentoras
do mesmo alento.

maria eduarda